CONTO: “O capricho de César” (VII)
Nesse momento, enquanto a multidão dirigia estas e outras fervorosas aclamações ao seu príncipe, entrou no tribunal um jovem alto e de bela aparência. Era loiro, elegante e envergava uma túnica escarlate. Caius reconheceu-o como sendo Marco Lépido Mnester, o célebre actor de pantominas, conhecido por toda a Roma.
Ao vê-lo entrar no tribunal, Calígula esqueceu por completo a multidão que o aplaudia e voltou-se muita rapidamente para o actor, abraçando-o. Depois, em frente dos quinze mil espectadores que então enchiam o Teatro de Marcelo, teve a ousadia de o beijar na boca, ainda para mais de forma particularmente apaixonada.
A primeira reacção da populaça foi de clara estupefacção. Nunca antes, em setenta anos de principado, um imperador se havia entregue publicamente a tais liberdades. E foi então que, após alguns momentos de silêncio total, alguém gritou de entre os cavaleiros:
- Marido de todas as mulheres e mulher de todos os maridos!
Este insulto gerou a maior confusão no teatro. Os actores abandonaram o palco e correram rapidamente para os bastidores.
De um lado estavam os que insultavam e apupavam violentamente o imperador. Entre estes contava-se a maioria dos cavaleiros, pois Calígula havia granjeado muitas inimizades na ordem equestre, graças às numerosas execuções, desterros e confiscações que ordenara.
Mas o imperador tinha também os seus defensores, especialmente no seio da populaça. Os insultos e as trocas de argumentos rapidamente cederam lugar à violência generalizada; num ápice, começaram a chover cadeiras, pontapés e outros “mimos” de parte a parte. E aqueles que, como Caius e Quintus, tentavam permanecer neutrais na batalha, arriscavam-se a levar pancadas vindas das duas facções que se digladiavam.
Entretanto, Calígula ordenou a intervenção dos lictores e das coortes pretorianas. Os soldados entraram pelas vomitoria, armados com bastões de madeira, e começaram a distribuir cacetadas pela multidão enraivecida.
Enquanto tentava fugir por uma das saídas do teatro, Caius olhou para o camarote. Viu Calígula e os amigos rirem-se de forma entusiástica, enquanto admiravam aquela tremenda confusão. Quanto a Ausonius, parecia petrificado. “O sacana diverte-se com a confusão que criou”, pensou Caius.
Ele e Quintus tentaram fazer caminho entre a multidão que procurava fugir do teatro. Viam-se ali pessoas de todas as idades e condições sociais, algumas cobertas de sangue e outras com as vestes rasgadas. Ouviam-se gritos, choros e o estrépito surdo das pauladas desferidas pelos pretorianos.
Quando finalmente chegaram junto da saída, Caius e Quintus viram a fuga impedida por três guardas pretorianos, armados com gládios. Caius viu um deles, aparentemente o mais graduado, erguer calmamente o dedo na sua direcção, enquanto dizia aos outros:
- Prendam esses dois aí. Devemos levar a César dois cavaleiros.
Obedecendo à ordem, os soldados amarraram Caius e Quintus, a quem nada valeram as tentativas de resistência e os protestos de inocência.
(Continua)
Roma Antiga
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